Um curta-metragem de ficção
dirigido por Nicolas Tavares, e com roteiro de Bruno Mendonça, baseado num
cordel da jornalista e poeta Rivani Nasário. Onde se aborda o tema da revolta
do Cangaço, no sertão brasileiro.
À primeira vista, para quem
conhece e admira o cinema de Glauber Rocha, se surpreende ao ouvir, desde os
créditos iniciais, a voz marcante do personagem Corisco, rezando em cena
clássica de “Deus e o Diabo na Terra do
Sol”. Uma clara referencia de inspiração à obra.
O que se destaca no decorrer do
filme é o humor característico de José Euclides
Souza. Sua interpretação é naturalista e marcante, talvez seja o que salve o
filme. Ele mostrou-se ousado ao interpretar três personagens diferentes. E
conseguiu, num curto espaço de tempo, mostrar talento em sua atuação.
O conteúdo do roteiro é daquele
bem clichê e, portanto desinteressante. Muito já se filmou sobre o Cangaço, de
maneira a saturar o que hoje se conhece pela história. Porém sua premissa
didática, ao mesmo tempo em que foge do modelo formalista, pode ser visto como
um exercício do chamado Cinema de Pernambuco, que tem como característica
fundamental essa falta de pudor. Há também uma simplicidade na estrutura
narrativa desse filme, no modo como seu desfecho é facilmente resolvido. Pode ter
sido uma ausência de criatividade ou de recurso, no entanto, por essa razão não
chega a cansar o espectador, mas talvez, se torna atrativo por ir direto ao
ponto. Numa montagem que é coesa, acompanhada de um ritmo impaciente, segue
sempre agudo. Não há espaço para banalidades fora de contexto.
É curioso que no filme, em parte
usou-se uma linguagem que para muitos, poderiam julgar como forçada, proferida
na maior parte do tempo pelo Tenente (Leonardo Moraes), e pelo Lampião (Bruno
Mendonça). Porém esse seria um falso julgamento. A linguagem predominante, nem
é forçada e nem caricata, mas teatral. Parece ter havido uma tentativa de
manter-se fiel ao cordel de origem. Por isso esse aprisionamento a rima
verbalizada e ao sotaque de raiz.
O filme escapa da ideia de
realismo estético. Os equipamentos de arte (pistola de madeira e artifícios de
papelão), usado muito no campo do teatro, se apresenta de modo a não transparecer
relevância, como se naquela hora o imaginário do publico devesse tomar conta da
cena. Porém é notável uma competência no trabalho de arte, tendo visto o
baixíssimo custo de produção ali presente, nele é ressaltado apenas o essencial.
De resto, há um cuidado e rigor com a fotografia, algo característico de
Nicolas Tavares.
- Leonardo Hutamárty
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