O Rei do Cangaço (2016) | Crítica

Um curta-metragem de ficção dirigido por Nicolas Tavares, e com roteiro de Bruno Mendonça, baseado num cordel da jornalista e poeta Rivani Nasário. Onde se aborda o tema da revolta do Cangaço, no sertão brasileiro.
À primeira vista, para quem conhece e admira o cinema de Glauber Rocha, se surpreende ao ouvir, desde os créditos iniciais, a voz marcante do personagem Corisco, rezando em cena clássica de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Uma clara referencia de inspiração à obra.
O que se destaca no decorrer do filme é o humor característico de José Euclides Souza. Sua interpretação é naturalista e marcante, talvez seja o que salve o filme. Ele mostrou-se ousado ao interpretar três personagens diferentes. E conseguiu, num curto espaço de tempo, mostrar talento em sua atuação.
O conteúdo do roteiro é daquele bem clichê e, portanto desinteressante. Muito já se filmou sobre o Cangaço, de maneira a saturar o que hoje se conhece pela história. Porém sua premissa didática, ao mesmo tempo em que foge do modelo formalista, pode ser visto como um exercício do chamado Cinema de Pernambuco, que tem como característica fundamental essa falta de pudor. Há também uma simplicidade na estrutura narrativa desse filme, no modo como seu desfecho é facilmente resolvido. Pode ter sido uma ausência de criatividade ou de recurso, no entanto, por essa razão não chega a cansar o espectador, mas talvez, se torna atrativo por ir direto ao ponto. Numa montagem que é coesa, acompanhada de um ritmo impaciente, segue sempre agudo. Não há espaço para banalidades fora de contexto.
É curioso que no filme, em parte usou-se uma linguagem que para muitos, poderiam julgar como forçada, proferida na maior parte do tempo pelo Tenente (Leonardo Moraes), e pelo Lampião (Bruno Mendonça). Porém esse seria um falso julgamento. A linguagem predominante, nem é forçada e nem caricata, mas teatral. Parece ter havido uma tentativa de manter-se fiel ao cordel de origem. Por isso esse aprisionamento a rima verbalizada e ao sotaque de raiz.

O filme escapa da ideia de realismo estético. Os equipamentos de arte (pistola de madeira e artifícios de papelão), usado muito no campo do teatro, se apresenta de modo a não transparecer relevância, como se naquela hora o imaginário do publico devesse tomar conta da cena. Porém é notável uma competência no trabalho de arte, tendo visto o baixíssimo custo de produção ali presente, nele é ressaltado apenas o essencial. De resto, há um cuidado e rigor com a fotografia, algo característico de Nicolas Tavares.
- Leonardo Hutamárty

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