O Perigo Mora Logo Ali (2016) | Crítica

O filme é uma obra fascinante. Desde já uma perola da cinematografia garanhuense. Seu humor sarcástico é mais do que uma mistura, é original. Transitando entre o cômico e o trágico, o pastelão e o negro, a sensibilidade e a escrotisse, a brincadeira e a seriedade, provoca riso e medo. Provoca instiga.
O trabalho é uma prequência fílmica do curta A casa 8, a qual explora a história que se sucede a famosa lenda da casa mal-assombrada. Por isso a narrativa já começa de forma assombrosa, retratando a noite em que um jovem rapaz muito azarado (Murate Azevedo), por influencia dos amigos, decide fazer um despacho para espantar as mazelas que lhe assolam a vida. No entanto, esta ideia ocasiona em algo de inesperado, dando origem, por fim, a famosa lenda da Casa oito.
O filme é confortável no que tange a apreciação, pois traz uma leveza que contagia. Murate demostra ter uma noção concreta sobre o limite ao uso de insanidade. As tomadas respeitam o seu tempo. Na cena do diálogo, quando sacodem a cabeça ao som da Xuxa, ou quando o personagem de Murate Azevedo bebe a cachaça a bico e língua, ou quanto ao uso de materiais externos (animações clássicas da TV), até mesmo a dancinha de embriaguez interpretada por José Pinto. Tudo aparenta reforçar o caráter trágico de uma rotina pós-moderna. Mesmo que ainda a narrativa tencione um caminho que reduza o conflito expostos a meras derrotadas de uma personagem central. A insanidade se mostra como centro fundamental de toda e qualquer experiência humana. Dá-se aí a forma lúdica do drama.
Há filmes de humor em que, de tão engraçados, são impossíveis de serem levados a sério, já outros, que de tão sérios, há quem morra de gargalhar por eles. Porém há uma exceção entre essas duas formas de linguagem. O filme O Alto da Compadecida é um grande exemplo. A obra sendo uma comédia assumida, consegue permear em uma seriedade dramática através do humor autentico nordestino. Consegue transmitir com genialidade uma natureza trágica nas cômicas tolices do cotidiano. Este filme-experimento de Murate se assemelha muito ao estilo.
O lado negativo, que também está presente em A Casa 8, é a tentativa de solucionar o problema narrativo através da linguagem verbal. Murate usa de frases para explicar o suceder dos acontecimentos, um recurso infantil e extremamente desnecessário, tendo visto que as imagens já se sustentam pelo que são. O autor acaba “pecando” em prevê uma ingenuidade por parte do telespectador frente a sua obra. Na tentativa de ajudar apenas aqueles que não compreenderam, ele acaba por diminui necessariamente o significado de representação imagética, assumindo em si uma característica de insuficiência.

À parte isso, o filme não nos deixa indiferente. A interpretação de Diego Luciano é relativamente excepcional. Escolhido pelo próprio diretor, ele encontra-se em seu melhor papel, sua forma excêntrica é agradável e convincente. Murate Azevedo também não é diferente. Sua personagem dramática é de todo autentica. Ele recorre ao seu próprio estilo de fazer piada, apontando uma constante negação de progresso do indivíduo através de ironias e exageros, dessa vez salpicada de humor negro. Há momentos específicos em que o filme se mostra sutil. Acontece sempre quando enquadra Murate de frente sob a luz fria. Em certo ponto, quando o personagem pronuncia a seguinte frase: “Roubaram ela semana passada!” a fala impacta e a imagem aparenta carregar uma verdade de pessimismo que se auto transborda.
- Leonardo Hutamárty

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