O filme é uma obra fascinante. Desde já uma
perola da cinematografia garanhuense. Seu humor sarcástico é mais do que uma
mistura, é original. Transitando entre o cômico e o trágico, o pastelão e o negro,
a sensibilidade e a escrotisse, a brincadeira e a seriedade, provoca riso e
medo. Provoca instiga.
O trabalho é uma prequência fílmica do curta A casa 8, a qual explora a história que
se sucede a famosa lenda da casa mal-assombrada. Por isso a narrativa já começa
de forma assombrosa, retratando a noite em que um jovem rapaz muito azarado (Murate Azevedo), por influencia
dos amigos, decide fazer um despacho para espantar as mazelas que lhe assolam a
vida. No entanto, esta ideia ocasiona em algo de inesperado, dando origem, por
fim, a famosa lenda da Casa oito.
O filme é confortável no que tange a
apreciação, pois traz uma leveza que contagia. Murate demostra ter uma noção
concreta sobre o limite ao uso de insanidade. As tomadas respeitam o seu tempo.
Na cena do diálogo, quando sacodem a cabeça ao som da Xuxa, ou quando o
personagem de Murate Azevedo bebe a cachaça a bico e língua, ou quanto ao uso
de materiais externos (animações clássicas da TV), até mesmo a dancinha de
embriaguez interpretada por José Pinto. Tudo aparenta reforçar o caráter
trágico de uma rotina pós-moderna. Mesmo que ainda a narrativa tencione um caminho
que reduza o conflito expostos a meras derrotadas de uma personagem central. A
insanidade se mostra como centro fundamental de toda e qualquer experiência
humana. Dá-se aí a forma lúdica do drama.
Há filmes de humor em que, de tão engraçados,
são impossíveis de serem levados a sério, já outros, que de tão sérios, há quem
morra de gargalhar por eles. Porém há uma exceção entre essas duas formas de
linguagem. O filme O Alto da Compadecida
é um grande exemplo. A obra sendo uma comédia assumida, consegue permear em uma
seriedade dramática através do humor autentico nordestino. Consegue transmitir
com genialidade uma natureza trágica nas cômicas tolices do cotidiano. Este
filme-experimento de Murate se assemelha muito ao estilo.
O lado negativo, que também está presente em A Casa 8, é a tentativa de solucionar o
problema narrativo através da linguagem verbal. Murate usa de frases para
explicar o suceder dos acontecimentos, um recurso infantil e extremamente
desnecessário, tendo visto que as imagens já se sustentam pelo que são. O autor
acaba “pecando” em prevê uma ingenuidade por parte do telespectador frente a
sua obra. Na tentativa de ajudar apenas aqueles que não compreenderam, ele acaba
por diminui necessariamente o significado de representação imagética, assumindo
em si uma característica de insuficiência.
À parte isso, o filme não nos deixa
indiferente. A interpretação de Diego Luciano é relativamente excepcional. Escolhido
pelo próprio diretor, ele encontra-se em seu melhor papel, sua forma excêntrica
é agradável e convincente. Murate Azevedo também não é diferente. Sua
personagem dramática é de todo autentica. Ele recorre ao seu próprio estilo de
fazer piada, apontando uma constante negação de progresso do indivíduo através
de ironias e exageros, dessa vez salpicada de humor negro. Há momentos específicos
em que o filme se mostra sutil. Acontece sempre quando enquadra Murate de
frente sob a luz fria. Em certo ponto, quando o personagem pronuncia a seguinte
frase: “Roubaram ela semana passada!” a fala impacta e a imagem aparenta carregar
uma verdade de pessimismo que se auto transborda.
- Leonardo Hutamárty
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